A importância das artes para a criança…

Cai-se muitas vezes no erro de dar às crianças, desde o Berçário, apenas aquilo que é fabricado para elas, especialmente a nível gráfico. Livros ilustrados com imagens estereotipadas e de filmes de animação são produtos comuns no mercado, mas com muito pouco para lhes oferecer a nível de estímulos visuais e cognitivos, prendendo-as por completo à história que já existe e ao guião construído para o filme em questão. Um livro com uma história original e ilustrações de autor é infinitamente mais rico ao proporcionar à criança a descoberta de um cenário imaginário repleto de novos personagens. Possibilita também uma abordagem de construção para além da história, uma vez que a mesma não existe em filme nenhum que tenha visto e, consequentemente, não há limites ao seu desenvolvimento na imaginação de uma criança.

No Jardim de Infância, é preferível trabalharem-se as histórias que são originais e que contêm ilustrações autênticas, evitando os bonecos comerciais e os títulos importados do cinema de animação. É fabuloso perceber a facilidade e interesse com que as crianças recriam as histórias ao nível do desenho, da expressão oral e das dramatizações sem terem por base desenhos e enredos já multiplicados vezes demais nos media que as rodeiam. O resultado final das suas interpretações e recriações é infinitamente mais original e, logo, muito mais rico. Na Creche, são ideiais os livros de associação de imagens que usam fotografias em vez de desenhos de má qualidade a servirem de ilustração a palavras simples do mundo do bebé. As fotografias aproximam a criança do mundo real, da Natureza e num contacto com o exterior e com os objetos levam-nas a reconhecer mais rapidamente as palavras.

O mesmo se passa com a música. O mercado discográfico inunda-se de títulos compostos para a infância, mas muitas vezes a riqueza musical que deles emana não é suficiente para a sensibilização estética, para o trabalho que deve ser feito ao nível do ouvido, no reconhecimento de timbres, ritmos e ainda da descoberta de sentimentos e emoções. Os adultos poderão pensar que levar as crianças a escutarem música clássica ou músicas étnicas será pouco interessante, mas enganam-se… A cultura musical de um indíviduo é enriquecida com um alargado conhecimento de vários géneros, com a apreciação de vários ritmos, com a capacidade de tirar da música mensagens e imagens. Ouvir Bethoven, Mozart ou Vivaldi com um grupo de crianças no Jardim de Infância é viagem garantida para interpretações sinceras e genuínas acerca de emoções veiculadas através da música e isso é, sentir a música, não apenas ouvi-la repetidamente sem lhe prestar qualquer atenção. Também na Creche faz sentido que as crianças escutem música variada, porque inicia-se ainda mais precocemente esse processo de sensibilização.

E Van Gogh, Miró, Monet? Poderão eles fazer parte do dia a dia da vida de um grupo de crianças em idade pré-escolar? Podem e devem! Dar às crianças a oportunidade de contactar com obras de pintores de renome na História da Arte é dar-lhes ferramentas para interpretar e entender o mundo, encorajando-as a recriá-lo esteticamente, através dos materiais. Mesmo a arte abstrata de Mondrian ou Kandinsky pode ser de grande utilidade para desenvolver a imaginação e a oralidade quando perguntamos “O que veem aqui?”. Acreditem que dos quadrados e linhas e pontos dispersos nascem casas e cidades e pessoas e tudo o que a imaginação permitir…

Há anos conheci um menino muito especial e que eu dizia que era provavelmente um dos últimos meninos que sabia realmente brincar e que tinha como paixão o desenho! A família apostava em programas artísticos e culturais aos fins de semana e nas férias e o menino absorvia tudo com um entusiasmo enorme, transpondo as suas vivências e aprendizagens para as suas brincadeiras e para os seus desenhos. Quando levei para a sala um projeto que lhes deu a conhecer vários nomes da pintura internacional, todas as crianças reagiram com grande interesse e no final do ano letivo todas sabiam reconhecer e identificar algumas obras-de-arte e respetivos autores, como gente crescida, assinalando quais as suas preferências, justificando-as, para além dos factos do mundo que tinham descoberto através da pintura.

Esse grupo transitou no ano letivo seguinte para o 1º Ciclo e uns tempos depois do início das aulas, esse menino muito especial regressou ao Jardim de Infância para me visitar com uma notícia estrondosa que lhe brilhava nos olhos. “Já sei o que quero ser quando for grande!”, disse-me ele. “E o que é então?”, perguntei curiosa. “Quero ser artista, como o Van Gogh!”, respondeu, sorridente.

Achei a resposta deliciosa e constatei que, de facto, partilhar a arte dos crescidos com os mais pequenos é um gesto de amor: é oferecer a oportunidade das crianças crescerem com mais sensibilidade para observar o mundo que as rodeia, é criar mentes capazes de tecer opiniões, é regar personalidades com sentido estético, é não deixar morrer a imaginação!
Assim, e numa cidade tão rica culturalmente como é Lisboa, ir ao Museu, assistir a um concerto e visitar uma biblioteca serão propostas a não perder e interessantes para uma tarde bem passada em família, entre outras que poderão surgir numa Agenda Cultural, numa revista ou até através do Colégio!
 

Catarina Águas
Educadora de Infância
fevereiro de 2013